Vender é transferência de entusiasmo. Onde entra a IA?
A frase retomada por Léo Simão encontra eco na pesquisa sobre emoções e atendimento. O que isso permite afirmar sobre o futuro do vendedor, da IA e do CRM.

Uma família pergunta se o resort é bom para viajar com os pais idosos. A resposta pode listar elevadores, distâncias e serviços. Um vendedor atento percebe uma pergunta por trás da pergunta: “Vou conseguir cuidar deles e também descansar?”
Responder corretamente é indispensável. Compreender o que está em jogo muda a conversa.
É nesse intervalo que a frase “vender é transferência de entusiasmo” ganha força. Entusiasmo, aqui, significa uma convicção que o cliente consegue perceber: conhecer a experiência, acreditar na adequação da escolha e explicar por que ela faz sentido para aquela pessoa.
Para a Sereia, a melhor aplicação da inteligência artificial em vendas começa com uma escolha de operação: dar ao vendedor mais contexto e mais tempo para exercer esse trabalho. Essa é uma tese de gestão. A pesquisa ajuda a sustentá-la e também delimita até onde podemos ir.
A frase é de Léo Simão?
Léo Simão usa a ideia publicamente. A cobertura de sua palestra na Expoagas, publicada em 19 de agosto de 2026, registra: “Venda é transferência de entusiasmo. Liderar é vender”. É uma fonte jornalística sobre a palestra, não a transcrição do podcast que motivou este artigo. Registro da fala no ClicSoledade.
A formulação também aparece em Brian Tracy. No capítulo Stay Enthusiastic, de Sales Success, o autor descreve a passagem de entusiasmo e confiança do vendedor para o comprador. O próprio texto introduz a expressão como algo que já se dizia. Portanto, temos documentação de seu uso por Tracy, mas não prova de que ele a criou. Trecho do livro.
Seu site oficial também emprega a expressão. A atribuição responsável é “ideia retomada por Léo Simão, também presente na obra de Brian Tracy”. A autoria original permanece não estabelecida nesta pesquisa.
Simão tem livros. A apresentação de sua participação no VABOcast lista Do Zero ao Exit, Startup Exponencial e 365 dias de Calma da Mente. Essa referência confirma um repertório autoral; não demonstra que a frase esteja nesses livros nem transforma a reflexão em evidência científica. Apresentação do episódio pelo VABOcast.
O que a ciência encontra na conversa
Em Service with a Smile, S. Douglas Pugh investigou o contágio emocional em encontros de serviço. O estudo, publicado em 2001, encontrou associação positiva entre a emoção demonstrada pelo funcionário, o estado afetivo do cliente depois do atendimento e sua avaliação da qualidade do serviço. A conclusão sustenta que a forma da interação importa. Não mede uma impossibilidade de substituição por máquinas, nem prova que entusiasmo sozinho cause uma venda. Artigo e resumo disponibilizados pelo autor.
Na pesquisa em turismo, um experimento com 259 participantes chineses da geração millennial examinou a combinação de sorriso e movimentos de cabeça. Esses sinais favoreceram a percepção de proximidade e autenticidade, que por sua vez contribuíram para o relacionamento entre cliente e funcionário. O recorte cultural e a situação experimental limitam a generalização. Ainda assim, o resultado ajuda a explicar por que uma interação comercial carrega informação além das palavras. Estudo em Annals of Tourism Research.
Nossa interpretação para a hospitalidade é prática: entonação, escuta, atenção e conhecimento da experiência podem ajudar o cliente a avaliar a escolha. Um entusiasmo apropriado pode ser sereno. Pode aparecer na disposição de explicar uma restrição ou recomendar uma alternativa menos cara quando ela atende melhor.
A confiança exige que a promessa sobreviva à chegada do hóspede. Animar alguém sobre uma experiência inadequada pode converter uma reserva e produzir um problema na operação.
A IA já consegue vender
A versão absoluta da tese, “a IA nunca substituirá um vendedor”, não se sustenta nas evidências disponíveis.
Luo e coautores estudaram mais de 6.200 clientes distribuídos aleatoriamente entre chamadas comerciais altamente estruturadas realizadas por pessoas ou por chatbots. Nesse experimento de 2019, os bots cuja identidade não havia sido revelada tiveram eficácia comparável à de vendedores proficientes. A divulgação prévia de que o interlocutor era um bot reduziu fortemente a compra naquele contexto. Artigo original em Marketing Science.
O resultado mostra capacidade comercial e sensibilidade à identidade percebida. Não recomenda esconder a automação nem permite transportar a mesma taxa de conversão para um resort. Também impede reduzir a IA a um site um pouco mais dinâmico: ela pode participar da persuasão e da conclusão de uma compra.
Uma compra com necessidade clara, poucas alternativas e regras estáveis pode exigir pouca intervenção humana. Já a negociação de um evento pode envolver interesses divergentes, concessões, restrições operacionais e responsabilidade pela entrega. Nossa recomendação é distribuir o trabalho conforme essas exigências e medir o resultado em cada tipo de venda.
A evidência mais útil está no vendedor assistido
Brynjolfsson, Li e Raymond analisaram a introdução gradual de um assistente de IA entre 5.172 profissionais de suporte ao cliente. A versão publicada em 2025 encontrou aumento médio de 15% nos problemas resolvidos por hora. Os ganhos foram maiores entre profissionais menos experientes; os mais experientes tiveram resultados menores e pequenas quedas em qualidade. Estudo em The Quarterly Journal of Economics.
É evidência de assistência ao trabalho humano em uma empresa e uma ocupação específicas. Não é uma taxa de aumento de vendas, uma medição em hotéis ou uma promessa de retorno para qualquer implantação.
A implicação que propomos testar é simples: se a inteligência reduz o esforço de recuperar informação e preparar respostas, o vendedor pode dedicar mais atenção à conversa. Para isso, a operação precisa entregar informação confiável, acesso adequado e liberdade para o profissional questionar uma sugestão ruim.
Comprar acesso a uma IA, por si só, não produz essa mudança.
Do primeiro contato à decisão
Considere um pedido de orçamento para um encontro empresarial. O percurso abaixo é uma proposta operacional da Sereia, não um resultado dos estudos citados.
Antes da conversa, a IA pode organizar o pedido, recuperar o histórico autorizado, consultar a Ficha Técnica vigente e destacar o que falta saber. Capacidade, disponibilidade e condições comerciais precisam vir de fontes verificáveis.
Durante a conversa, o vendedor investiga o objetivo do encontro, entende quem decide e testa se a proposta atende à necessidade real. Pode reconhecer que o espaço escolhido não funciona ou que a objeção ao preço encobre insegurança sobre a execução.
Depois da conversa, a inteligência pode preparar a proposta, registrar o combinado, lembrar o retorno e apontar divergências. Exceções e compromissos seguem os limites de aprovação definidos pela operação.
Na passagem para a entrega, o que foi vendido precisa chegar a quem vai executar. A promessa comercial e a capacidade operacional devem contar a mesma história.
Nesse desenho, a presença humana tem uma função concreta. Existe alguém autorizado a negociar, interpretar o contexto e responder pelo compromisso. A inteligência sustenta a continuidade do trabalho.
O que pode desaparecer é o trabalho de alimentar o CRM
O CRM reúne funções diferentes: memória do relacionamento, registro de oportunidades, distribuição do trabalho, acompanhamento e controle de acesso. Parte da fricção vem do esforço manual para mantê-lo atualizado.
A tese da Sereia é que agentes podem absorver uma parcela crescente dessa operação. Registrar uma conversa, preparar um retorno e recuperar o histórico podem acontecer no próprio fluxo de trabalho. Isso pode permitir substituir produtos isolados e reduzir duplicações, quando a operação comprovar que as funções necessárias estão cobertas.
É uma hipótese sobre organização do trabalho e evolução dos produtos. Não há, nos estudos citados, prova de que a IA eliminará a categoria CRM. Memória, permissões, rastreabilidade e continuidade continuam necessárias, mesmo que a interface e o fornecedor mudem.
Cancelar um software só faz sentido depois de verificar que o trabalho passou a acontecer com qualidade, segurança e custo adequados.
Como testar a tese no seu hotel
Escolha uma jornada comercial e estabeleça um ponto de partida. Compare períodos ou grupos semelhantes, levando em conta origem do contato, tipo de pedido, experiência do vendedor e sazonalidade. Sempre que viável, distribua os contatos aleatoriamente para tornar a comparação mais confiável.
Observe a conversão por oportunidade qualificada, a margem após concessões, o tempo até uma proposta correta e a qualidade da passagem para a operação. Acompanhe também reclamações, retrabalho e o tempo que o vendedor dedica à conversa. Velocidade que aumenta erro precisa aparecer na avaliação.
Essas são nossas sugestões de medição, não indicadores com melhora garantida. O teste deve permitir concluir tanto que a assistência ajudou quanto que uma aplicação precisa ser corrigida ou interrompida.
A escolha que defendemos
“Vendedor sem IA será substituído por vendedor com IA” funciona como provocação. A versão responsável é condicional: um vendedor que usa bem a IA pode ganhar vantagem sobre quem realiza sozinho o mesmo trabalho. Experiência, qualidade da implantação, natureza da venda e confiança do cliente continuam fazendo diferença.
Nenhuma profissão ganha imunidade por ser humana. Ao mesmo tempo, capacidade de automatizar uma tarefa não obriga uma empresa a retirar pessoas de toda a jornada.
A Sereia aposta em inteligência que prepare melhor o vendedor, preserve o conhecimento da casa e sustente o que foi prometido. Entusiasmo comercial merece tempo, contexto e responsabilidade para virar uma experiência que o cliente queira viver.
Se vender envolve transferir entusiasmo, vale começar tirando do vendedor o trabalho que o impede de estar presente.
Nota de método. Este é um ensaio editorial apoiado em uma seleção de estudos, não uma revisão sistemática nem um artigo científico original. A pesquisa foi consultada em 12 de setembro de 2026. Os achados, seus limites e as interpretações da Sereia estão separados no texto. A fala de Léo Simão foi verificada por registro jornalístico de palestra; o episódio específico mencionado no briefing não foi identificado. Nenhum estudo citado demonstra que o vendedor humano será insubstituível em todos os contextos.